Infância tem a cara da janela
Tem o cheiro de bolo de fubá
Tem cheiro de mato molhado
De terra batida também poeira
Tem cheiro de suor, catingueira
Tem cara de menino levado
Com os dedos todos cortados
Cheinho de lama e de frieira
Tem o som do atabaque de Zé
De grito de Cota. de brincadeira
Infância tem cheiro de pipoca
De manga madura e inchada
Chocolate, café e bolacha
Na casa da vizinha escondida
Porque antes do almoço
A mãe da gente não dava
Tem cheiro de mertiolate
Mercúrio cromo e digo mais
Tem cheiro de bangue e arnica
Sarando o joelho que doía demais
Infância tem cara de quintal
Cara de boneco, cavalo de pau
Carrinho de lata de leite
Bruxa de pano e rolimã
Carinho de primo, de prima
De tio, vizinho e irmã
Minha infância foi assim
Uma angustia avexada de agonia
Quem será que vai pegar
A bola na casa de dona Lia
E a pipa enrolada no fio
Minha mãe não deixa tirar
Vamos lá barraca de dona Biu
Quem sabe ela nos dá seda
Aquele cheiro de perigo
Um beijo no canto escondido
Naquele primo que veio de longe
Cuidado da mãe não saber
Ela tira o pelo e vai doer
Não deixa ninguém escapar.
Hoje eu sou adulta e temo
Uma noite na pracinha é tarde
Os horários me chamam
A cama não me deixa dormir
As coisas que tenho a fazer
Tudo aquilo que eu construí
Essa casa grande de boneca
Das recordações que guardo
Nos meus sonhos mais sapecas
Quem sabe poderei brincar
De casinha um dia no terraço
Fingindo que é sala de estar
Na esquina e naquela praça
Vou levar minha lembrança
Quem sabe um dia resgatarei
em meus sonhos de criança
A infância por mim vivida
As histórias que vou contar
Daquela vida corrida
Que eu gostava de levar.
Aninha Barbosa
Nenhum comentário :
Postar um comentário
Tudo que tiver a dizer é importante...