minha vida presente me recorda dores que nunca senti,
dores que tenho marcada em minhas costas,
lembranças de uma mãe que nunca viu seus filhos,
que nunca conhecerá a dor de vê-los partir,
preto onde está o teu lamento também urde a tua voz em nossos sonhos de liberdade vigiada,
sem moendas e sem senhores.
quantos calos feitos,
quantas mãos abertas,
quantos sonhos desfeitos
a lembrança da dor ao moer a cana
e o ardor da pinga na gente.
Calejados meus braços não aguentaram a dor,
nesse fosso caí,
mãe preta!!!!!!!!!!!
eu renasci,
eu voltei pro mato,
nesse tempo exato eu estou aqui
moe a cana meus sonhos de liberdade,
se vão os sonhos com a pinga que arte ardente em meu coração
Afiadas fossas moem a àgua e dão vida a moenda,
os braços dos pretos ainda cantam,
a voz que cala pra não deixar o Senhor ouvir o lamento da labuta,
o peito que encanta e a dança de quem canta pra seus males esquecer.
Moenda de cana,
moe as minhas calejadas mãos,
suores e dores o cheiro da indecisão,
cheiro de carne e de feijão,
que vem de ´lá,
da janela da preta que cozinha,
da ama que alimenta a sinhazinha,
na casa onde nunca vivi,
onde não podia entrar,
negro não entra aqui.
Casa grande não pode esquecer,
da janela o olhar o olhar do senhor sobre o preto,
que suado lhe dava o sustento,
se eu pudesse meu pai Oxalá,
pedia a todos os orixás,
que me levassem de volta pra mãe Africa,
mãe preta me abraça,
levanta teu filho,
aninha esse preto que não sabe mais chorar.
Ana Elizabete Barbosa



